Vomitando um passado escuso

Na infância, eu não fui um cara fodido, fruto da miséria ou coisa do tipo, fui um moleque de sorte, no meio de tanta merda rolando pelo mundo.

Apesar de crescer sem fartura nas quebradas, de Jaraguá a Osasco, não me faltou teto, comida ou educação.

Pública.

Eu não tinha Nike mas era feliz de All Star.

Fodido eu fiquei quando sai debaixo das asas mornas e conheci o mundo, porque ele veio safado e sedutor, se esfregando na minha fuça, virgem, e eu fui penetrando e querendo ir sempre mais fundo.

Era só um maconheiro, mas comecei a pagar de Cazuza, sem ter talento nenhum.

Me enfiei nas entranhas do underground, cuspindo na moral e nos bons costumes, e só mostrava o pau quando a cobra não tava lá. O sol anunciava a hora de dormir e a noite despertava a insanidade em mim. Eu evocava os espíritos sem saber que porra era tudo aquilo. Eu vi o demônio e ele tentou me mastigar mas logo cuspiu meu corpo coberto de xilocaína barata, sua boca ficou dormente e então bebericou um pouco de vila velha.

Vi o chão se contorcer, a parede derreter e as nuvens virarem moinhos.

Eu mesmo era meus moinhos.

Eu sentia o gosto da cocaína e queria sempre mais, porque o crack me deixava deprimido rápido demais.

Uma puta chupava meu pau mole enquanto eu fodia minha vida.

E eu gostava.

Gostava tanto que esquecia o caminho de casa.

Me entreguei a uma estrada de tijolos de ouro, de gente que falava e eu fingia escutar, de gente escrota pagando alguns minutos de brisa.

“Me deixa enfiar a cara nesse espelho!”, eu dizia.

Meu erro foi perceber que estava desaparecendo.

E queria desaparecer.

Sumir sem deixar rastro, nem carreira.

Mas eu tive medo.

Me acovardei porque ainda existia humanidade em mim.

No Comments, Be The First!

Your email address will not be published.