Sequelado

Não importa quanto tempo passe, eu ainda sinto o sabor ácido das cinzas. Ainda tremo ao sentir cheiro de plástico queimado. Ainda me sinto bixo, perseguido, sem assunto, como se eu não tivesse serventia pro mundo. Não importa se já fazem mais de dez anos, quase todas as noites eu acordo suando, em pânico, como se estivesse prestes a morrer. Sequelado. Ilhado no pior de mim mesmo.

O drama da festa da lata.

Às vezes acho um paradoxo porque de todos os anos que não lembro, ficaram só as piores lembranças. Só os vestígios mais sujos. Tipo salto de peito em trilho de trem arrebentando a cara na brita, perna perfurada fugindo de bixo que não se via.  Acordar sem saber onde se está. Não saber quando está. Se já esteve. Fugir de casa e deixar o vô morrer na mão da mãe.

Deixar na mão.

Transar puta e travesti. Dormir na rua. Bater o carro de alguém. Ver um amigo morrer na sua frente. Voltar pra casa duas semanas depois. Perder o juízo.

Eu não sei como sobrevivi. Nem porque. Só sei que já fazem mais de dez anos mas ainda sinto o gosto ácido das cinzas.

No Comments, Be The First!

Your email address will not be published.