Os tolos ignoram. Os fracos se entregam.

O guardião da luz nos colocou em seu reino para garantir a ordem. A escuridão é nossa pista, onde nos movemos suaves e persuasivos entre almas embriagas por desejos materiais. Disfarçados de coragem e com uma voz sedutora, levamos ao abismo.

Há milhares de anos, acompanho estas criaturas. Iludidas. Sem rumo. Ansiosas por respostas que não existem. Perdidas em si mesmas. Acreditam-se centro do universo. Como aquela mulher no escuro em busca de poder. Devagar. Com passos firmes no beco abandonado, ignora o mal.

O portal é invisível aos olhos, mas a mulher é treinada para sentir a manifestação do oculto. Para ao perceber a energia movendo-se de forma caótica entre os dois mundos. Deixa a alça da bolsa escorregar suave de seus ombros até chegar ao chão. Respira fundo e fecha os olhos. Absorve a realidade como uma esponja e emana podridão. Se mistura ao breu e a maldade. Ajoelha. Cola mãos e testa no chão enquanto murmura em um idioma esquecido. Palavras ensinadas às piores almas vivas. Tão antigas quanto o homem. Quando a este, era permitido dirigir a palavra ao guardião.

Olha a parede à sua frente e sorri. É aqui mesmo, pensa. De dentro da bolsa tira duas garrafas. Uma vermelha, outra branca. O sal serve para desenhar um círculo a sua volta. Acredita ser possível proteger-se. Dentro do círculo, um pentagrama invertido: a chave. Tira as roupas e posiciona-se no centro do símbolo. Eleva a garrafa vermelha acima da cabeça e entoa um mantra ininteligível. Sangue. Para banhar o corpo. A energia que abre e lubrifica o canal com o portador da sabedoria. Ritual impecável.

Olhos de sangue coagulado e hálito em brasas. Ele surge de dentro dela.

– O que você pensa que está fazendo?

– Por toda a existência, meu senhor, em troca da verdade, eu hei de servi-lo.

Ele ri.

– Ao contrário do que você pensa, eu não preciso barganhar sua alma. Ela sempre foi, sempre será minha. A única verdade que você pode compreender é a de que seu mundo é minha propriedade. Você é feita para nascer e morrer confinada.

A mulher é apenas dor. Não pode gritar mais. Seu corpo escorre junto com o sangue. Em um minuto se transforma numa grande poça vermelha. Vejo o momento em que a alma se revela. Depressa, eu a guio para outra prisão. Uma que talvez me traga alguma vantagem futura nestes jogos sádicos que mantemos.

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