21h57

Há dois meses não faço nada além de ficar em casa com meus remédios. Para piorar tem o Francisco. Está louco. Vai de canto a outro, para, olha pra porta do apartamento e se arrepia. Desde hoje cedo. No início, esporádico, mas hora após hora, mais constante. Agora, o gato está tomado de um frenesi diabólico. Preciso de ar fresco e vou até a janela na esperança de aproveitar uma brisa. Me arrependo. Uma lufada de ar quente, denso e carregado de um hálito pútrido lambe a face do prédio onde fica minha janela. Quase não seguro o álcool no estômago. Volto, tropeço no tapete, e caio no sofá enquanto perco os sentidos.

Acordo com meu tremor. Meia luz de um abajur ao lado do sofá ilumina o lugar. O relógio no meu pulso marca três minutos para as dez da noite. Sento e vejo minha respiração como um vapor no ar. Tão frio de repente? Tudo está estranho. A realidade está gelatinosa e as paredes dançam como ondas para cima e para baixo. O Romero Brito, na parede a minha frente, veleja tranquilo nesse mar. É sério?

Pareço revigorado. Apesar do tremor, não sinto mais febre, tampouco calafrios. Olho para a janela, à esquerda do sofá. Lá fora apenas breu. No beiral, minhas plantas, secas e mortas. Do lado direito, a porta do apartamento, escancarada, e atrás dela, só ausência de luz. Francisco está aos meus pés. Olhar fixo em mim. Algo chama sua atenção para a porta. Como antes, se arrepia, mas agora, corre e salta pela janela. Desaparece. A escuridão atrás da porta invade a sala, como uma fumaça negra, sólida, pronta para se alimentar de tudo à minha volta. Sinto a realidade vibrar no ritmo do meu coração, acelera cada vez mais. Quando a escuridão está prestes a me devorar perco os sentidos de novo.

Não sei quanto tempo depois abro os olhos. Dou um salto para o lado com medo e cubro o rosto com as mãos. Mas tudo está calmo. A realidade está de volta ao normal. As paredes estáticas e o quadro sem graça como sempre. Do lado esquerdo ainda há o breu da noite, mas as luzes dos apartamentos do prédio a frente brilham. Francisco? Cadê o Francisco? Leu meu pensamento e miou para me chamar. Está tranquilo enquanto é acariciado por ela. Encostada no batente da porta. Uma mulher de tez pálida e cabelos compridos.  O vestido preto e curto marca seu corpo esguio. Fico preso ao seu olhar nublado e inexpressivo.

Vem devagar na minha direção. O frio. Aumenta a cada passo. Caminha e chega na minha frente. Coloca Francisco no chão e, devagar, senta no meu colo. Primeiro ela põe uma das mãos no meu rosto. Nunca senti nada tão gelado na minha vida. Depois a outra mão na outra face. Não consigo me mexer mas não importa: só quero beijá-la. Ela aproxima devagar sua boca da minha, e para, a dois centímetros. Então, suga minha alma devagar. Sorri quando termina e observa meu cadáver oco enquanto ele escorrega para o lado. Ela desce do meu colo, pega Francisco e desaparece.

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