Sobre mãos e animais mortos

Hoje, minha avó está na casa dos setenta anos. Desses tantos, conheço os últimos trinta e dois. E nesse tempo todo, apesar de não saber nada sobre a arte da quiromancia, aprendi muito sobre a velha, e boa parte de sua história consigo ler em suas mãos.

De tanto enfrentar o fogão, suas mãos ficaram cheias de machinhas redondas e brancas, causadas por queimaduras de bolinhas de óleo quente estalando e pulando para fora da frigideira.

Após muitos anos de arrumação, de muita roupa torcida, de muitas vassouras, rodos e outras ferramentas de trabalho doméstico, suas mãos ficaram calejadas. Através destas mãos, muito suor foi derramado para manter o lar em ordem para sua família.

Não me lembro, em todos esses anos, de ver a velha passar um dia sem tricotar. Razão de suas falanges distais dos dedos indicadores ficarem deformadas e curvadas num ângulo de quarenta e cinco graus para fora.

E não se engane ao pensar  nessas mãos, como se elas pertencessem a uma velhinha frágil, incapaz de matar uma mosca. Muito pelo contrário. Estas mesmas mãos esquartejam animais de açougue. Sangue escorre pelo ralo sem piedade. Couro e gordura são arrancados dos cadáveres. A faca desliza pela carne, fatiando em tiras, bifes, cubos e em tantas outras formas, servidas quentes, para nosso sádico prazer alimentar.

Quando era criança, ficava ansioso ao ver ela chegar do açougue com um belo frango morto. Assistia com prazer ela abrir o defunto para remover tripas e todas as partes descartáveis. Para mim, a morte não estava presente no sentido daquele ritual. Eu era muito novo. Era pura diversão.

O auge era o momento dela cortar a cabeça do frango, porque ela sempre dava para eu brincar. Eram demais os contos e brincadeiras. Eu abria e fechava os olhos do frango, brincando com suas pálpebras cheio de curiosidade e fincava aquele cabeção nos meus bonecos. Criava inimigos para os heróis e tantas outras coisas. Só a criatividade de um menino era capaz de transformar tamanha morbidade em fantasia.

Tempos depois, os frangos passaram a vir limpos e sem cabeça. Para a tristeza daquele moleque mas para a alegria da velha, pois tinha muito menos trabalho na hora de preparar o jantar.

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