Três mulheres e um destino – Parte I

Josélia acorda com o escândalo do despertador. Deitada, estica o braço e tateia no breu até encontrar o dispositivo sobre o criado mudo. Aperta o único botão que existe na parte superior e ele se cala. Nos dias comuns, costuma xingar o aparelho, como se ele representasse o próprio cão, que vem do do inferno para castigá-la todas as manhãs. Mas hoje, ela nem liga. Logo vai pegar a estrada até o rio Jequitinhonha, depois, subir rumo a Bahia, numa bem aventurada viagem para rever sua mãe.

As sobrinhas também vão. Moram juntas desde que a irmã de Josélia faleceu a vinte anos atrás, de cólera. O pai, sumiu quando a caçula nasceu e nunca deu notícias. Tia Josélia acolheu as meninas como se fossem suas filhas. Ambas são lindas e possuem olhos de jabuticaba, herdados da falecida. Alfaia, hoje com vinte e dois anos, tem por volta de um metro e setenta. Uns dez centímetros a mais que Salma. Está tão ansiosa para partir quanto a tia. Enquanto que Salma, é um pouco tímida, e está com um certo receio em relação a viagem. Já tem trinta e sete anos, mas sua aparência é tão jovial, que qualquer um que não a conheça bem, pode facilmente lhe atribuir uns vinte e poucos anos.

São quatro e meia da manhã e Josélia precisa se arrumar para partir. Tateia mais um pouco e encontra o abajur, paralelo ao relógio. A luz fraca revela o interior do pequeno quarto: uma cama de solteiro, um criado mudo e uma cômoda. Sobre esta, uma mala pequena e um vestido, aguardando sua dona.

Senta na beira da cama e esfrega os olhos, depois, levanta e vai até a cômoda para trocar de roupa. Seu vestido é preto e chega até a altura dos joelhos. É uma mulher de sessenta e um anos, cabelos castanhos, olhos verdes e possui um corpo de invejar mulheres mais jovens. É mal vista pelas esposas da vizinhança, principalmente pela fama, injusta, de ser mulher da vida. Adora dançar e vive nos rala coxas da cidade. Os homens fazem fila para dançar com ela, porém, nunca se deita com eles. É bonita e ótima dançarina. Isso basta para cair na língua venenosa das famílias “de bem”.

Quando abre a porta do quarto, sente um cheiro delicioso de café. A luz do corredor já esta acesa e ela caminha em direção a cozinha. Passa primeiro pelo banheiro, depois, pela porta do quarto das sobrinhas. Olha seu interior. A cama de cima da beliche esta vazia, e Salma, sentada na cama de baixo, termina de calçar os sapatos. A beliche é a única diferença entre o quarto das sobrinhas e o da tia.

– Bom dia Salma, já está pronta?

– Sim tia, vamos?

– Depois do café, traga nossas malas para cozinha por favor.

Após falar com Salma, Josélia segue para a cozinha, onde Alfaia faz o café em um canto da pia. O cheiro está ainda mais forte e delicioso. A água quente passa por um coador de pano e corre direto para dentro de uma garrafa térmica vermelha. No outro canto, está o fogão. Ele tem duas bocas, funciona a gás e não tem forno. A pia é simples, de alumínio, e abaixo dela há um botijão.

Sobre uma pequena mesa de ferro, dessas encontradas em botecos, havia um prato com três panquecas doces recheadas com goiabada e queijo. Salma volta com as malas e as deixa no corredor, depois, senta para comer. Para contornar o problema da ausência de espaço e de armários, Josélia colocou algumas prateleiras na parede oposta a porta da cozinha. Usa para guardar algumas panelas e outros utensílios. De lá, retira xícaras, pratos e talheres. Abaixo das prateleiras existe um pequeno frigobar. Ganhou numa rifa, comprada para ajudar o asilo da cidade. Isso, antes de Alfaia nascer.

Comem as panquecas e tomam o café em silêncio. Mais pelo efeito da preguiça do que por falta de assunto. Quando terminam o café, Salma lava, seca e guarda a louça. A tia aconselha as meninas a verificar tudo antes de partir: documentos, passagens e janelas trancadas. Depois de tudo checado, pegam as malas e saem de casa por uma porta no fim do corredor.

Josélia e as sobrinhas moram em um bairro muito afastado do centro de Serro, Minas Gerais, além da zona rural e as margens dos morros e das serras que cercam a cidade. Andam por trinta minutos, passando por várias ruas de terra, antes de chegar em um ponto de ônibus, a beira de uma estrada vicinal. O sol já começa a nascer e o horizonte esta com uma cor alaranjada muito bonita. Um Sabiá Laranjeira que pousou na copa de uma das árvores logo atrás delas começa a cantar. Salma mergulha na beleza do céu e da música do pássaro. Pensa na mãe, na saudade, na tristeza de não lembrar de seu rosto e de não ter nenhuma foto dela. Começa a rezar, mas é interrompida quando Alfaia da um pulinho e aponta para frente dizendo:

– Olhem! É ele!

O ônibus surge ao longe, de uma curva na estrada, ao pé da serra. São três corações, que agora batem mais forte. A viagem vai começar.

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