Dia de visitas e divisões

Era dia de visitas e dois agentes penitenciários foram escalados para a recepção dos homens. Um recebe os documentos, o outro realiza a revista. Tudo corre bem. Feliciano, sentado em uma pequena mesa, chama um por um, de uma fila formada a dez metros dali, atrás de um portão de aço. Pega o documento e checa se o visitante está credenciado. Caso não, encaminha o mesmo para outra fila. Se a documentação está em ordem, Silas, que está em pé a seu lado, o recebe e faz a verificação rotineira.

Feliciano chama o próximo. Um homem de barba e cabelos grisalhos se aproxima. Usa óculos escuros, uma corrente dourada no pescoço e uma camisa de estampa xadrez preta sobre um fundo branco. Calça sapatos de couro marrom, a mesma cor de suas calças. Traz nas mãos uma pequena maleta , de onde tira seu documento e um envelope pardo, que entrega para Feliciano.

O agente lê, na parte superior do envelope, o número dois seguido de três zeros. É comum receber esse tipo de “oferta”. A maior parte vem de pessoas que transportam drogas para alimentar o tráfico no presídio. Não é uma tarefa difícil, porém, deve-se conhecer as pessoas certas e ter cacife para cobrir a facilitação. Feliciano abre uma pequena gaveta da mesa e guarda o envelope, depois, finge realizar uma conferência na lista, então, pede para o homem seguir para a revista. Silas, que assiste a tudo, sorri.

Realiza uma revista displicente, suficiente apenas, para não despertar desconfiança do próximo homem da fila. Conclui com dois tapinhas nas costas do revistado e aponta para a entrada. Quando o homem some pátio adentro, Silas da um murro fracote no ombro de Feliciano e lança uma piscadela. O colega apenas chama o próximo. E assim foi o dia: um olhando documentos e o outro apalpando as pessoas. Tudo continua tranquilo, até a hora de abandonar o expediente.

O vestiário é grande no comprimento mas na largura nem tanto. No lado esquerdo de quem entra, estão quinze colunas de armários metálicos encostados á parede. Dois armários por coluna. No lado direito, uma fila indiana de bancos compridos e baixinhos . No fundo existem seis chuveiros, sem nenhuma divisória entre eles.

Feliciano já tomou banho e deixou o banheiro inundado em vapor quente. Está de frente para o seu armário pegando roupas limpas quando Silas entra no vestiário. Antes de ir até o colega, certifica-se de que estão a sós e entrega uma pequena sacola de plástico para ele.

Vamos homem, coloque minha parte ai! – pensou.

Feliciano olha para a sacola. Olha para dentro do armário. Levanta as sobrancelhas e coça o queixo. Tira algumas roupas sujas de dentro do armário e enche a sacola, depois, vira-se e coloca a sacola no banco. De volta para o armário, tira de lá uma camiseta azul e começa a vesti-la.

Silas, observou a tudo sem acreditar no que estava acontecendo. Será que tá zuando minha cara? Já trabalhamos juntos a dez anos. A grana sempre é dividida. É o esquema! Será que vai tentar me atravessar pela primeira vez? Se tiver de palhaçada eu vou acabar com esse vagabundo.

– Ta maluco?, a sacola é para minha parte da grana!

Silas vai até o banco, pega a sacola e joga as roupas no chão, depois, entrega a sacola para Feliciano, que da um tapinha na testa e levanta as sobrancelhas. Ele retira do armário o envelope. Silas presta atenção no colega. O envelope não possuí mais o mesmo volume avantajado. Feliciano retira de seu interior uma nota de vinte reais, coloca dentro da sacola e a devolve para o dono.

Silas pegou a sacola, e por alguns instantes, ficou observando seu interior.

– Vinte reais? Ta maluco ? Pensa que pode tirar uma com a minha cara desse jeito?

Jogou a sacola na direção do Feliciano, mas ela estava tão leve que flutuou e caiu apenas a alguns centímetros a frente. Os dois assistiram à cena e quando a sacola chegou ao chão levantaram as cabeças e fixaram olhar um no outro.

Silas começou a caminhar, bufando feito touro bravo. Deu um murro na porta do armário para fecha-la, depois, levantou o punho com um único dedo enriste e colou no nariz do abusado. Feliciano agora estava com o rosto lívido, olhos arregalados e suando frio. O momento era de total instabilidade, e qualquer movimento brusco podia gerar danos a sua integridade física. Levantou devagar sua mão esquerda, abriu a porta do armário para Silas ver seu interior.

Este, virou a cabeça e pode ver um bilhete preso a parte interior da porta. Está escrito: “Diretor 98%”.

Primeiro seu queixo desaba, depois braços, e por fim, todo o corpo. Está ai o motivo. O safado do diretor. Era o único capaz de estragar tudo. De alguma forma ele ficou sabendo do esquema de hoje e ficou com a grana.

Silas pega a sacolinha do chão, volta para seu armário e troca suas roupas. A poucos minutos era puro vigor, agora? Quando termina de se arrumar, vira para o colega, e de ombros ainda caídos, apenas balança a cabeça para se despedir. Dizem as más línguas que algumas lágrimas foram vistas em sua face. Mas isso ele nunca assumiu.

Feliciano, observou Silas passando pela porta e foi até lá, olhar pelo corredor para certificar-se da partida do colega. Volta para seu armário e saca uma bíblia. Um bolo de notas salta quando ele abre o livro. Guarda todo o dinheiro no bolso. O bilhete? Rasga e joga no lixo, depois, fecha o armário e vai para a pia. Penteia os cabelos de frente para um grande espelho. Uma última ajeitada na franja. Sorri e vai embora.

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