O advogado

Sem transito é rápido chegar ao Porto de Santos. Descer a Anchieta é tranquilo em dias de semana. O táxi parou em frente ao Bar do Silveira e o taxista anunciou o valor da corrida. Fábio Augusto entregou o dinheiro e saiu do veiculo.  “Que lixo!”, olhou o bar e conferiu as horas.

“São dez horas. Ainda vai demorar uns 30 minutos”.

Entrou e pediu um café. Ficou em pé em frente ao balcão e colocou sua maleta sobre ele. Retirou dali um bloco de anotações, uma caneta e algumas folhas impressas. Acariciou uma das folhas do bloco com as pontas dos dedos e sentiu a textura do material reciclado. Apesar de não dar a mínima para a questão ambiental, gostava da textura e da cor deste tipo de papel.

O dono do bar, o tal Silveira, serviu o café em um copo americano. Fábio Augusto ficou olhando para o liquido e pensou que jamais vira um advogado de sucesso, como ele, beber um café de aparência tão duvidosa. Deixou de lado a bebida. Silveira nem ligou. Se afastou e foi atender outro cliente.

O bar não esta cheio, mas há fregueses. Dentre os clientes de Silveira, três estivadores, um bombeiro e dois operadores de guindaste. Os estivadores tomam pingado e comem pão na chapa. O bombeiro pediu um refrigerante. Os operadores, logo cedo, tomam uma gelada.

O dia esta quente, o cheiro do mar parece com o de uma grande fossa a céu aberto. Fábio Augusto estava quase arrependido de ter aceitado o encontro neste local. Mas já esteve em lugares piores. Ainda mais no início de sua carreira.

Hoje prefere lugares mais “refinados”.

Um dos estivadores se levanta. Paga a conta no caixa e confere o resultado do bolão da semana. Não ganhou. Vira-se e pega seu rumo. No caminho:

– Attttccchhuuuuuiiiiiiimmmm!

Após o espirro, o estivador cruza a saída. Fábio Augusto sente um calafrio subir dos pés a cabeça. Uma onda de pavor passa a dominar seu corpo e sua alma. Faz até o sinal da cruz para apelar para uma proteção divina. Momentos antes dele deixar a cama no dia de hoje: como de costume, zapeia algumas notícias pelo celular, e como bom hipocondríaco, se atem somente as desgraças relacionadas a saúde, ou a ausência dela. Uma destas notícias alerta para o fato de que algumas pessoas morreram no país em decorrência de um vírus muito forte chamado H1N1.

Começa a suar frio quando pega o celular. O sinal da rede denuncia que ele esta numa zona fora da área de cobertura de sua operadora. Afrouxa a gravata e sente-se ainda pior com o cheiro de fossa.

Pede uma garrafa de água gelada. Puxa um banquinho de pernas compridas, desses que ficam sempre perto dos balcões. Senta. Descansa por cinco minutos. Ouve sua respiração. Tenta prestar atenção somente no agora. No barulho das máquinas e dos contêineres colocados e removidos dos navios. A conversa das pessoas. Agora sim. Esta recuperando o controle sobre seus pensamentos. Olha as horas.

“Faltam apenas dois minutos”.

Fábio Augusto junta outra vez seu material. Coloca em ordem os assuntos que seriam abordados e quando pega a caneta para fazer uma anotação, sente um peso em seu ombro. Vira-se e empalidece.

– Bom dia Fábio Augusto.

Ele não responde. Se estivesse em pé teria caído, suas pernas estavam completamente frouxas.

– Desculpe se houve um pequeno atraso.

– Você…

– Ótimo, vamos tratar logo de negócios. A questão é que você terá uma viagem muito longa. Nossa empresa fica muito longe. Como você bem sabe, ainda esta meio complicado conseguir acesso aos andares de cima. Os sócios ainda analisam com muito zelo seus resultados. Mas em outros andares a equipe já está louca pra te receber. Eu estou aqui para entregar sua passagem e autorizar o visto de permanência. Quando você quer partir?

– Você…

– Alguma coisa errada? Precisa de mais informações?

– Eu…

– Eu! Eu não tenho tempo a perder. É uma passagem para o prazo máximo de dois meses, nesse período você pode me chamar a qualquer momento, a qualquer momento mesmo, para te acompanhar, do contrário, após o último dia, não há mais chances.

Depois de dar o recado, sai do bar. Ao mesmo tempo entra um homem, que de forma muito simpática diz:

– Bom dia Fábio Augusto.

 


Licença Creative Commons
O trabalho O advogado de Ronaldo Ramos Júnior está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://ronaldo-jr.com/2016/04/04/o-advogado/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em ronaldo-jr.com.

 

No Comments, Be The First!

Your email address will not be published.