A usina

Parto de Botucatu com destino a Bauru e deslizo por um tapete de piche chamado Rondon. Minha condução é um poisé surrado pelo tempo, e este, me leva preguiçoso como um caracol. A trilha sonora da aventura é a quebra do vento nas janelas, pois o rádio não funciona desde os tempos áureos, quando ainda era chamado de possante.

Prefiro assim.

Me perco no soprar do vento, minhas preocupações, lembranças e articulações devoram o passar das horas e dos quilômetros. O som é hipnotizante e a paisagem oferece suas distrações. Uma delas é a usina. Ela sempre merece destaque em conversas e histórias sobre minhas viagens.

Mas entre tantas belezas naturais, qual a razão de citar a usina? Essa máquina de destruição, consumidora de nossa camada de ozônio e um dos motivos destas queimadas criminosas?

Calma, eu explico.

É sempre assim: quando ela aparece em meu caminho com aquele ar burguês, imagino sua chaminé como um cachimbo, do qual ela traga e despeja no ar uma fumaça densa, branca, travestida de nuvem. Chega a brincar com a minha imaginação quando traz a imagem de velhas marias fumaça cuspindo para o céu.

As nuvens, puras e ingenuas, observam aquela fumaça toda, nascer e morrer, de acordo com a vontade do homem. Talvez elas fiquem curiosas e com vontade de fazer mil perguntas para a fumaça, com a intenção de descobrir coisas sobre a usina, sobre a cana e sobre a chaminé. Mas toda fumaça, morre um pouco antes de chegar perto delas, e deixa apenas o cheiro do álcool espalhado pelo ar.

Talvez a própria fumaça, entre o nascer e o morrer, aviste a nuvem no céu e sinta um pouco de inveja, talvez deseje aquele flutuar sem fim, ou pelo menos um pouco mais longo comparado a sua própria efemeridade. Fico me perguntando se algum dia, momentos antes de uma fumaça desaparecer, ela olhou para uma nuvem e disse:

– Você parece um coelho.

Continuo minha viagem.

Nos quilômetros restantes, penso na vida efêmera da fumaça e na do próprio ser humano. Penso em coisas tristes e alegres deixadas pela estrada e penso naquelas guardadas em minha bagagem para me acompanhar. Pessoas vem, pessoas vão, e talvez nunca falem comigo, assim como a fumaça nunca fala com as nuvens.

Vou assim, entre minhas encanações, enquanto o combustível explode para fazer girar as rodas no asfalto e me levar até Bauru.

 


Licença Creative Commons
O trabalho A usina de Ronaldo Ramos Júnior está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://ronaldo-jr.com/2016/03/27/a-usina-2/.
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