Noite de seresta

Não é fácil chegar aos setenta e dois anos arrependido de não ter vivido os próprios sonhos. Tudo bem, Jair fez tudo direitinho. Foi um homem bom. Cuidou dos pais até eles partirem. Cuida até hoje da tia Inês. Por sinal, com seus noventa e oito anos, parece estar em desalinho com o caminho da roça. Frustrante mesmo, é a falta de tempo, vontade e coragem para materializar seus desejos.

Quarenta anos atrás poderia ter se casado com Rosana, a moça mais bonita de Restinga Seca. Dividiram uma cama muitas vezes, mas ele não teve coragem de pedir sua mão. Cansada de esperar, ela partiu para Santa Maria, em busca de uma nova vida. Jair até tentou reconquistar a moça. Fez visitas, levou juras e promessas. Mas o pai faleceu e ele assumiu de vez o sustento da casa. Foi diminuindo a frequência das viagens, até cessarem de vez. Depois passou a receber notícias de Rosana através de um amigo caixeiro.

A primeira dor veio quase um ano depois: nasce-lhe um filho. Nasceu também uma pulga, ainda presente atrás da orelha de Jair. A segunda dor foi a notícia do casamento pouco depois, já era hora de encontrar um companheiro de verdade, consolou-o o amigo. Dez anos depois, a maior das dores, quando ela faleceu, após meses doente. Jair tentou estabelecer contato com o filho de Rosana, mas nem o viúvo nem o menino mostraram muita simpatia. A última notícia do rapaz, anos mais tarde, foi quando Jair viu sua foto na seção criminal do Diário de Santa Maria, depois de ser preso por assalto a banco.

Jair caminha em direção à mercearia e sente a rotineira dificuldade para respirar. Culpa dos dois maços de cigarros queimados todos os dias, desde os quinze anos. No meio do caminho perde o folego e começa a tossir como se fosse pôr os pulmões para fora. As pernas ficam fracas a ponto de precisar buscar apoio em um poste. Leva algum tempo apoiado enquanto tenta se recuperar.

Os olhos, cheios de lágrima de tanto tossir, tentam encontrar sentido nas coisas em sua volta. O poste que o ampara, é apenas uma mancha comprida e marrom. A textura sob suas mãos porém, são estranhas a textura de madeira que ele esperava. Tenta identificar o que está tateando mas vê apenas borrões.

Preciso é parar de fumar, pensa Jair, ao mesmo tempo que saca um lenço do bolso, com a outra mão, para enxugar os olhos. E depois de liberar a visão, reconhece um cartaz entre sua mão e o poste. De início, ele pode ver apenas um vestido vermelho e esvoaçante que parece tentar escapar por entre seus dedos. A dona é uma linda mulher nos braços de um elegante rapaz.

Um alívio suave invade seu corpo quando o ar volta a fluir, e ao retirar a mão do apoio, vê o anúncio de uma noite de serestas, hoje mesmo, no clube da cidade. O cartaz reavivou a lembrança de Rosana. Viu a imagem de sua jovem amada, também com um belo vestido vermelho numa destas noites de serestas. Mas já faz muito tempo. E desde aqueles dias, jamais dançou, jamais se divertiu.

O coração se enche de alegria e Jair não demorou a matutar, E se? Mas e tia Inês? Ora, a filha do Joel, Marineide, já cuidou dela uma vez. Uma noitezinha é tranquilo. Mas você tá velho. E dai? Serestas são cheias de pessoas maduras e saudosas da boa música. Esse bate e rebate dura o caminho até a mercearia, mais um pouco enquanto compra o café e os cigarros, e todo o caminho de volta para casa. Pontos e contrapontos numa disputa ferrenha.

Cedeu ao desejo.

Tratou logo de falar com Marineide. A menina aceitou e ele passou a correr atrás do figurino. Recorreu ao terno e aos sapatos novos, presentes de sua tia há alguns anos. Nunca foram usados. Passou, engraxou, tomou banho, fez a barba e se empapou da loção mais cheirosa. Precisou descansar um pouco. Quando melhorou, despediu-se da tia para ganhar a noite, com um misto de medo e excitação. Como um garoto de vinte anos.

Jair decide pegar um trajeto um pouco mais longo, mas sem dificuldades físicas e respiratórias. O único problema, são aqueles terrenos abandonados no meio do caminho. Mas Restinga Seca é uma cidade pacata. E Jair seguiu tranquilo para a noite de serestas.

Atravessa o primeiro terreno baldio e escuta um farfalhar pelo mato além da trilha. Como não se pode ver coisa alguma, sai logo dali, ganha a rua iluminada. A cabeça vira o tempo todo de um lado para outro. O coração a mil. Sua frio e sente a respiração falhar mais uma vez. Não pode correr, mas acelera até o limite permitido por seus pulmões. Enquanto olha para trás, procurando por um possível perseguidor, esbarra em um homem à sua frente. A iluminação do poste é suficiente para revelar o rosto e uma faca na mão direita. O susto quase joga Jair ao chão, mas ele reconhece aquela pessoa. O rosto de um menino, muito tempo depois, estampado num jornal.

– Hoje vou derramar teu sangue pela honra da minha mãe. – disse o homem com a faca.

– Mas eu não fiz nada.

– Exato. Nada. Ela ficou na miséria. E você não fez nada. Ela deu a luz a um bastardo, sozinha em casa. E você não fez nada. A pobrezinha comeu o pão que o diabo amaçou. E você não fez nada.

– Mas ela encontrou um homem decente, muito melhor do que eu.

– Ela ficou a maior parte do tempo que estiveram casados numa cama. E quando a febre lhe atormentava a razão, ela balbuciava seu nome, Jair, sob os cuidados do único homem que chamei de pai. Sob suas lágrimas. Eu ainda carrego a lembrança do sofrimento daquele homem.

A vítima da emboscada já não reagia mais a realidade a sua volta. Apenas um filme corria em frente a seus olhos. Um filme onde dois jovens alegres dançavam sem se preocupar com o resto do mundo.

– Ela chamava por mim?

– E agora você vai pagar com sua vida por todo esse sofrimento. Eu cresci com seu nome martelando minha mente. Eu preciso por um fim nisso.

Jair ficou ali, pronto para receber toda a ira reservada pela vida. E ela veio primeiro entre as costelas. Sentiu o gosto metálico do sangue em que se afogava e caiu de joelhos, deixando a garganta na altura do segundo golpe. O terno novo agora estava banhado em sangue, e ele, agonizante, tentou demonstrar arrependimento, e se a vida permitisse até teria sido um homem melhor para Rosana. Mas já era tarde.

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