No acaso do caos

De vez em quando, tiro os olhos da revista e espio ela, deitada na maca, enquanto o tatuador escreve um poema do Neruda em seu quadril. Viajo na máquina e nas agulhas. Machucam sem piedade aquela pele macia. E mesmo depois do passeio do algodão, o sangue teima em brotar, como gotas de orvalho rubro.

Cinco horas atrás eu estava em casa, na cama. Decidido a aproveitar o domingo para pôr em dia o sono atrasado. Mas o celular toca. É Mauricio do outro lado. Quer porque quer me mostrar o primeiro disco do Jackson do Pandeiro. Uma raridade. Encontrou no Sebo do Messias. Somos percussionistas desde moleques, e ele sabe o quanto gosto de Jackson. Fechei com ele: já já to ai. Mas demoro quase uma hora para sair da cama. A preguiça só me abandona quando escorre pelo ralo com a água fria do banho. Faço um café forte e levo uma xícara para a sacada, para fumar um Hollywood.

Eu moro na Vergueiro. Perto da estação Ana Rosa. Mauricio, na Augusta, perto da Consolação. Em menos de dez minutos eu estaria na casa dele. Mas lembro da feira no Masp e desço na Trianon. Chego lá e me distraio com as antiguidades. Vou de barraca em barraca e percorro com olhos e curiosidade aqueles objetos. Teriam valor para alguém em algum lugar do tempo? De repente, mãos macias chegam por trás de mim e tapam meus olhos. É Vanessa, minha prima, acompanhada de uma garota. Mostra o presente adquirido na barraca atrás de nós para dar ao tio Cléber, de aniversário. Ela aproveita e apresenta Paula, uma amiga da faculdade de letras, em Araraquara. Minha prima fala algo sobre a faculdade, família e outras coisas, mas não lembro. Minha atenção ficou em Paula.

Convido as duas para tomar uma gelada, mas Vanessa nega. Precisa correr para entregar o presente do meu tio antes do seu embarque para o Rio de Janeiro. Ele é pianista e está sempre de viagem marcada. Grande músico. Foi uma forte influência na minha infância. Vanessa, antes de ir, precisa levar a amiga até o estúdio do Marcão, um dos melhores tatuadores de Sampa, porque Paula agendou uma hora com ele.

– Vou deixar ela lá, e quando terminar, vai de táxi pra minha casa.

Eu conheço o lugar e me ofereço para acompanha-la. Vanessa pergunta a Paula se tudo bem, e quando a amiga concorda, me agradece pela gentileza. Depois ganhamos beijos e abraços, e ela vai embora. Some em poucos segundos na multidão.

– Temos algum tempo antes da sessão, o convite para a cerveja ainda tá de pé?

–  Claro que sim, digo.

Seguimos para o bar, a dois quarteirões dali e pedimos as bebidas.

– O que você vai tatuar?

– Um poema. Si cada día cae.

Ela recita em espanhol e depois em português. Diz o nome do autor e fica com olhar fixo na tulipa. Como se revivesse algo em sua mente. Eu só vejo bolhinhas nadarem apressadas. Depois de um silêncio curto, ela continua:

– Comecei a escrever um livro, seu título é “A guardiã do som do mar”. O personagem principal tem esse mesmo poema tatuado no braço. O livro fala de um homem cansado do caos da cidade. Um dia ele se muda para o litoral e se apaixona por uma artesã, capaz de transformar conchas encontradas na praia em magníficas peças de arte. Eles se casam. Anos mais tarde, ela vai embora para a cidade de onde ele escapou. Fica fascinada com a velocidade da vida por lá, através das histórias de seu amado, e decide experimentar algo diferente do sossego ao qual está acostumada. Estou nessa parte. Apesar da dor no coração do homem, quero um final feliz. Uma reviravolta. Sei lá. Quem sabe ele não tenha uma epifania sobre a busca da felicidade? Ora, se buscamos é porque não temos. Enquanto persistir na busca, a felicidade sempre estará ausente. Sabe? O verso: é preciso sentar no poço da sombra e pescar luz caída com paciência, vai ecoar em suas reflexões. Ainda está muito vago, mas talvez siga por aí.

O papo segue fácil depois dela falar do trabalho. Literatura, música, história e atualidade. Encontramos alguns gostos em comum. E nos avessos também. Enquanto isso, o tempo avança rápido e esvaziamos algumas garrafas. A bebida faz efeito, e soltamos confissões, algumas inocentes, como seu medo em relação a dor da tatuagem. Por isso a ideia de beber veio a calhar. Agora não se preocupa tanto. Vez ou outra consulta o celular para saber as horas, e no meio de um papo sobre a vida universitária ela diz:

– Está quase na hora da sessão.

Rachamos a conta e partimos para o estúdio. No caminho ela me pergunta se tenho planos para mais tarde, se posso esperar até o Marcão terminar, e me faz um convite:

– Se você não planejou nada, podemos continuar nosso papo depois.

Mesmo se tivesse planejado algo eu teria dito: tudo bem.

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