Uma carta para Alfeu

É tarde da noite. A luz da vela mal ilumina a mesa no único comodo da casa. Lá fora chove forte e o vento balança com violência as tabuas usadas como paredes para o pequeno cubículo. Uma goteira encharca a cama de palha, mas ele não se importa, não tem intenção de dormir. Vez ou outra, o clarão dos raios iluminam o interior de sua casa como se fosse dia, revelando Alfeu, no canto oposto a mesa. Ele está  em pé a mais de uma hora, olhando por uma pequena janela de vidro. Aquele breu úmido inunda seus pensamentos, despertando em sua imaginação apenas destinos conduzidos pelo ceifeiro.

A dor da saudade é grande, o tormento pela incerteza é ainda maior. Preciso escrever agora, não posso esperar mais. Não da para esperar pela luz do dia, ficaria ainda mais atolado no lamaçal de suposições cruéis encubadas em minha mente.

Caminha e senta em sua mesa. Eis o material reservado para esta noite: uma pena, um tinteiro pela metade e quatro folhas de papel. Uma semana de espera para conseguir estas folhas, velhas e manchadas. O Padre não deve se aborrecer por isso.

A vossa Santidade Padre Azeredo Coutinho

Peço perdão por incomodar vossa santidade com os problemas desse velho, porém vejo-me já sem outra alternativa. Acontece que meu único filho alistou-se a exatos seis meses atrás como grumete em um navio rumo ao Brasil, e desde que partiu, não obtive mais notícias do garoto.

Após muito perguntar aos marinheiros do porto aqui de minha terra, fui informado de que o navio deveria ficar no porto do Rio de Janeiro, terra de vossa Santidade, pelos próximos meses, devido a um problema no casco.

O vento abriu a porta e trouxe o caos da tempestade para dentro de sua casa.  A vela se apagou e tudo não passava de cegueira, confusão e pânico. A primeira reação dele foi segurar as folhas mas já era tarde. Sentiu-se nauseado e mesmo assim levantou. Foi tateando, tropeçando, enfrentando água e vento até conseguir fechar a porta.

Alguns minutos se passaram entre acender a vela e reorganizar suas coisas. O alívio por encontrar as folhas ao chão, mas sem nenhum estrago é indescritível. Seria a gota d`água para a loucura tomar conta de uma única migalha de sanidade restante.

Gostaria de pedir a vossa santidade, se for possível, que peça a alguém para avisar meu filho que estou aflito e preciso urgente de notícias.

O garoto se chama Deótila Abranches e tem treze anos de idade. O nome do Navio é “Nossa Senhora da Conceição”.v

Espero que vossa santidade entenda o desespero desse velho e que possa, por caridade, oferecer ajuda e trazer paz a minha alma.

Quatro meses se passaram até que finalmente Padre Azeredo enviou alguma notícia. Sem dúvida, essa foi uma espera angustiante e ácida o suficiente para corroer seu juízo. Tanto, que no dia anterior a carta, alguns estivadores viram o velho entrar no mar, gritando, fazendo gestos, desafiando sabe-se lá quem ou o quê. Pularam na água e o salvaram quando começou a se afogar.

A carta lhe foi entregue pelo capitão do Rosa dos Anjos.  Este, encontrou Alfeu abalado no porto, e assim sem rodeios entregou-lhe a mesma. O velho abriu e iniciou uma leitura forçada, e em dado momento, os olhos que se espremiam para discernir o significado das letras, se arregalaram e sua boca se escancarou. Alfeu deu um grito e só parou quando perdeu o folego e caiu de joelhos. O capitão tentou tocar-lhe o ombro mas ele levantou e saio correndo em direção a cidade, berrando sem parar.

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