algumas cinzas antes de dormir

ESPECIAL / COTIDIANO / SAO PAULO, 09.10.2007 / Viciado fuma crack na rua dos protestantes, regi‹o conhecida como cracolandia, no centro de Sao Paulo. Projetos de revitaliza‹o da cracolandia foram lanados mas a regiao esta cada vez mais degradada.

Quando eu dou a pipada, rola um apito nos ouvidos e minha visão fica turva. Prendo a fumaça nos pulmões e minha boca começa a formigar. Sinto o gosto forte da rocha misturado com o de cinzas de cigarro. Sempre uso cinzas sobre os furos da lata para a rocha não derreter e cair lá dentro.

Nessa hora, a euforia é tanta, tanta, que meu coração dá sinais de poder espanar. A ideia da morte fica me rondando. Mas o maior problema agora são minhas mãos. Suando e tremendo. Quase não consigo segurar o cachimbo. Perco o controle e derrubo um pouco das cinzas. Confesso que não é uma imagem bonita.

Meu mocó é este estacionamento de trens abandonado e em ruínas. Mesmo em noites de lua cheia não bate luz no meu canto. Venho aqui para o mesmo ritual. Fico de cocoras, encostado na parede fria e úmida, enquanto preparo e torro as rochas. Foda mesmo é no outono, o vento aqui em cima da serra de Botucatu é cruel. Cada rajada gelada parece uma faca de açougue afiada na sua cara. Dai tenho que virar de costas para o vento e tentar não perder nenhuma porção da rocha. Felizmente, hoje ta uma noite boa para quem precisa do isqueiro. Noite sem ventos, mas fria.

Estou voltando a mim, não demora muito para a fissura voltar também. É como se não tivesse fumado nada. Olho para as cinzas e não vejo mais nenhuma rocha, só torrões, pedacinhos de carvão. Quebro esses pedacinhos com a bunda do isqueiro para ver se no interior ainda existe algum sinal de rocha. Nada. Ai já passo a sentir uma dor no estômago. Tento fumar as cinzas na esperança de tragar uma lasquinha que seja. Mas não existe nada, não tenho mais controle. A fissura me faz agir como um animal. Chafurdo nas cinzas em busca de prazer.

Então vem a depressão. Se não tem mais rocha, não existe razão para continuar vivo. A tristeza é tão violenta que sento com a cabeça entre os joelhos, mãos na nuca, balançando de um lado para o outro. Penso em descer na boca mais uma vez. Pedir fiado. Fazer uma fita pra levantar a grana. Minhas havaianas não vão render nada. Como meu Nike já rendeu.

Tomo a vodca que levei numa garrafinha de refrigerante. Ela desce quente e enjoa meu estomago. Mas só nos primeiros goles. Já não sinto mais tanta náusea. O álcool esquenta meu corpo e reduz a noia.

Demora um pouco para eu voltar a me sentir humano. Penso mais algumas vezes em ir na boca. Mas começo a cogitar ir pra casa. Difícil é sair do breu. Um bilhão de viaturas da PM  estão prontas para me dar o bote. Tem alguém me vendo? Esse barulho no mato. Que bicho é esse? É real? É neurose?

O melhor é ir para casa.

Depois de esticar um pouco as pernas, ando devagar e pelas sombras, antes de deixar o estacionamento, me certifico que não há ninguém por perto. Só assim, caminho em direção aos trilhos. Ando uns trezentos metros, depois, subo um pequeno morro e passo por um buraco no alambrado. Imagino o breu vomitando um verme para a avenida principal do meu bairro. Volto para a civilização.

É um dos bairros nobres da cidade. Minha casa fica a três quarteirões de onde estava, chego rápido. Tomo cuidado para não fazer barulho. Minha mãe já está dormindo. Ela é professora na universidade. Meu pai não esta em casa. O BMW dele não ta na garagem. Só o da minha mãe. Ele é médico e provavelmente está em um plantão. Não preciso enfrentar seus discursos fascistas sobre minha vida marginal por agora.

Meu quarto é grande. Uma suíte. Entro e tomo um banho demorado. A água quente me relaxa. Depois, me jogo na cama. Nu e molhado. Abro a gaveta do criado mudo, e de lá tiro um maço de Marlboro. Acendo um e sopro a fumaça pro alto. Me divirto olhando ela dançar pelo ar formando figuras demoníacas.

A uns três metros do pé da cama fica minha estante. Falta uma TV de quarenta e duas polegadas. Fumei ela mês passado. Rendeu uma micharia na boca, mas rendeu. Não sinto falta dela. Ultimamente, nos canais pagos ou abertos, só encontro uma porrada de coisas que não me dizem nada. Filmes, séries, documentários, só porcaria. Nem putaria me anima mais.

O cigarro vai queimando e percebo que vai ser impossível dormir assim. Tem uma força invisível sobre meu corpo. Tenta me levar para a rua, sair correndo, sei lá. Chego a invejar a liberdade dos mendigos.

Apago a bituca no cinzeiro e coloco embaixo da cama. Preciso de algo para dormir. Meu pai mandou fazer um bar de madeira maciça na sala. Compra as bebidas mais caras para as visitas. Vire e mexe fala um monte na minha orelha quando uma de suas garrafas somem. To nem ai. Pego uma garrafa de Buchanan’s e volto para meu quarto. Direto do gargalo, vou tragando a bebida, até a garrafa esvaziar. Não sei o momento, só sei que apago.

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