Sexta-feira

Fábio Augusto para em frente à recepção de seu prédio. Hesita. Olha pra cima. Para o outro lado da rua. Atravessa. Apesar do cansaço, após um dia inteiro de trabalho, resolve fazer alguma coisa diferente. Sem saber que coisa é essa.

O que sabe, é o que faz normalmente:

Chega em casa e põe comida para o gato. O nome do gato é Francisco. Às terças e sextas feiras, percorre todos os cômodos. É um prazer secreto e também uma vistoria. São os dias em que João, o diarista, limpa a casa. Deixa um cheiro de casa limpa perfeito. Toma um banho. Depois uma dose de whisky. As vezes duas. Prepara o jantar. Sempre comida japonesa. É um ótimo sushi man. Toca um pouco de violão. Pensa em Amélia. Ciúmes, raiva e saudade. Coisas do amor. Arruma a roupa para o dia seguinte e deita-se para dormir.

Hoje não.

Do outro lado da rua, olha para trás. Avista um outro ele, portão adentro, subindo as escadas em direção ao elevador. Com raiva daquele covarde, vira-se. Parte sem rumo.

Caminha dois quarteirões e aventura-se em uma estação de metrô. Logo na entrada uma criança pede esmolas. Um Fábio Augusto passa reto o outro fica e lhe dá algum trocado. Procura aquele que passou pela criança como se ela fosse um fantasma. Já está na bilheteria. Vasculha suas lembranças sem remorso. Apenas por curiosidade.

Depois de comprar o bilhete, passa pela catraca e desce uma escada. Na plataforma, se posiciona atrás da faixa amarela. Quando o metrô chega, entra em um vagão e encontra um lugar pra sentar. A porta se fecha. Já esta em movimento quando avista ele mesmo, um pouco atrasado, descendo as escadas. Ter o coração mole atrasa as pessoas.

Uma voz anuncia o que ele imagina ser o nome das estações, mas  é impossível entender qualquer coisa. É preciso usar o mapa das estações para a localização. Depois de cinco ou seis paradas, ele resolve descer. Levanta e vê que ainda esta sentado. Um desce o outro fica.

Uma pessoa se aproxima. Alto, cabelos vermelhos, olhos azuis. Fala inglês. Diz que está perdido. Que é da Inglaterra. Tagarela por alguns minutos e pergunta como chegar no marco zero da cidade. Fábio Augusto explica. Adora mostrar que tem um inglês fluente. Consegue até imitar o sotaque britânico. Um vira guia do gringo o outro apenas continua.

E assim foi a noite toda:

Diversão tédio felicidade tristeza mulheres homens amigos inimigos preso expulso convidado repelido amado odiado. Até salvou uma vida.

Aconteceu na rua do meretrício. Perto do Casarão. Um cheiro forte de fumaça. Todos olhando para cima. Também olhou. A primeira coisa que viu foi fuligens caindo suavemente do céu. Sentiu uma ponta de poesia naquela chuva preguiçosa.

O que ele não imaginava, era o último andar do prédio ardendo em chamas. Uma senhora desesperada pela morte horrível que a perseguia, saltou pela janela. Quebrou o pescoço ao cair. Mas o pescoço era o de Fábio Augusto. Ela, apenas as pernas. O falecido amorteceu sua queda.

Francisco bebe água na cozinha. Ele, mais uma dose de whisky no conforto do apartamento. Observa a cidade pela janela. Sente preguiça só de pensar em sair. Deixa o copo sobre a mesa, arruma a roupa para o dia seguinte e deita-se para dormir.

 


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